Curas Embrionárias
Em 2004, cientistas tiveram sucesso em produzir as chamadas células-tronco – uma espécie de fábrica de tecido humano – a partir de embriões clonados. O resultado representou um passo grande e promissor para a medicina, mas também reinaugurou o debate mundial sobre o limite ético desse tipo de pesquisa.
Células-tronco são um tipo especial de unidade do organismo, que pode ser tratado em laboratório para se transformar em células especializadas, como neurônios, sangue ou tecido cardíaco. Por isso, são chamadas de indiferenciadas e pluripotentes, isto é, têm potencial para gerar tecidos diferentes. Elas servem a pesquisas para fins terapêuticos, na busca da cura de doenças degenerativas, como o mal de Alzheimer e o de Parkinson, e na tentativa de ampliar as possibilidades dos transplantes de órgãos.
E por que usar embriões clonados para produzi-las? Até hoje, só as células-tronco retiradas de embriões mostraram potencialidade ampla. Já foi provado que células-tronco extraídas do cordão umbilical, da placenta, do cérebro e da próstata podem se diferenciar em alguns outros tecidos, mas não em todos. Além disso, a clonagem gera células com o mesmo material genético do paciente que necessita do novo tecido. Assim, não há rejeição pela defesa do organismo.
O experimento bem-sucedido foi conduzido por uma equipe de 15 pesquisadores, liderada Woo Suk Hwang, da Universidade Nacional de Seul. Seu primeiro relato mundial apareceu em 12 de fevereiro, no site da revista Science. Foi a primeira vez que uma pesquisa chegou a uma fase tão avançada. Antes, cientistas alegaram ter clonado embriões para estudar as células-tronco, mas a maior parte deles foi contestada.
O sucesso na experiência amplificou a voltagem do debate. Para gerar células-tronco, o embrião tem de ser desenvolvido até um estágio em que, para alguns, já existe vida. E ele poderia, em tese, ser gerado por uma mulher, que daria à luz um ser humano completo – e clonado. “A era do clone humano aparentemente chegou”, disse Leon Kass, presidente do Conselho de Bioética do governo norte-americano, que decidiu restringir a pesquisa na área.
• Voluntária cede óvulos e células não-reprodutivas para a pesquisa
• Os óvulos têm seu DNA removido; as células cedem material genético
• São gerados embriões clonados, com o DNA da doadora
• Embriões são cultivados até poder criar células-tronco
• Essas células são tratadas para virar músculo, neurônios e sangue, por exemplo
A eleição norte-americana foi um reflexo da polarização global em torno do uso de embriões para gerar células-tronco. O pivô da discussão foi o ator Christopher Reeve, ativista da causa, que chegou a ser mencionado nos debates eleitorais da TV entre o presidente George W. Bush e o candidato democrata John Kerry. Ironicamente, Reeve morreu em 10 de outubro, aos 52 anos, vítima de um ataque cardíaco, dias antes de ver o candidato que apoiava suas teses ser derrotado na votação. Reeve atuava em causa própria quando defendia essas experiências. Em 1995, após interpretar o personagem Super-Homem em quatro filmes, o ator sofreu um acidente de cavalo, quebrou duas vértebras e ficou tetraplégico. Depois da morte dele, a causa de Reeve ganhou outro defensor hollywoodiano: Arnold Schwarzenegger, que passou a estimular pesquisas com células-tronco como governador da Califórnia.
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- sumário da edição 075
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