História do Tempo Presente

Nada de tempo perdido...

Historiadores tentam decifrar impacto de fatos recentes na rota da humanidade

Na manhã de 11 de março de 2004, quase 200 pessoas perderam a vida em Madri, no pior atentado ocorrido em uma capital européia. Não foi um acaso. Houve uma sucessão de fatos e de processos históricos que começaram em anos anteriores e que levaram a esse resultado.

Para entender a ação terrorista, é preciso levar em conta que o ataque a civis foi considerado meio legítimo de ação pelos terroristas; que, três anos antes, outro grupo inaugurou a moda de promover ações espetaculares de destruição, atingindo o World Trade Center para chamar a atenção para sua causa; que o governo sediado em Madri se alinhou com os norte-americanos para invadir outro país, por isso foi considerado inimigo pelo grupo; que os Estados Unidos aproveitam o fato de serem a única potência mundial para invadir o país alheio na defesa de seus interesses; que esse domínio mundial se consolidou com o colapso da União Soviética; que, antes disso,...

Em outras palavras: as explosões e mortes de Madri são parte relevante de uma seqüência de acontecimentos que têm importância histórica. Ocorre que é muito mais fácil julgar o peso histórico de um fato depois de passado muito tempo. É assim que alguns historiadores trabalham. Outros, no entanto, aceitam o desafio de fazer algo diferente - a história do tempo presente.

Trata-se de se debruçar sobre fatos que acabaram de sair das páginas dos jornais, na tentativa de decifrar sua importância para a História. Interessam os acontecimentos que têm grande repercussão, provocando guinadas no rumo dos povos, e os que são fruto direto de movimentos historicamente importantes.

A proposta de descrever o tempo presente como relato histórico já aparece em 1975, quando o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) publicou um livro sobre a história da violência nas prisões. Na obra Vigiar e Punir, Foucault apresenta a idéia de olhar o presente com a perspectiva dada pelo passado. "É como a genealogia nietzschiana: tem início em um problema no presente como uma perspectiva motivadora, em que se trabalha de volta ao passado", afirma o sociólogo britânico Thomas Osborne, membro-fundador do History of the Present Research Network, um centro de pesquisas sobre o assunto.

O noticiário é uma grande fonte de pesquisa para quem faz história do presente, porque fatos jornalísticos e momentos históricos podem se confundir. "Eu não estou certo de que exista uma diferença fundamental entre um evento na História e um evento jornalístico", afirma Osborne, que também é professor no Departamento de Sociologia da Universidade de Bristol.

O pesquisador chama atenção para o fato de que nem tudo que vai para o jornal tem relevância histórica. E, por outro lado, fatos e mudanças importantes podem passar despercebidos pela mídia. "Isso apenas mostra que mutações históricas acontecem em diferentes níveis", afirma Osborne.

A tarefa de escrever a história do tempo presente não é simples. "Algo que nem foi considerado fato relevante instantaneamente pode se mostrar um fato relevante num futuro próximo", explica o historiador Jaime Pinsky. O analista deve ter, além de acuidade em sua investigação, mais sorte do que aquele que estuda um passado mais remoto. Isso porque um fato recente nos revela menos coisas sobre transformações econômicas, políticas e sociais do que outro ocorrido num passado longínquo. Nesse caso, nos resta o exercício de previsão.

Há vantagens claras, por outro lado. Afinal, pouco adiantaria conhecer a História se não fosse para compreender o momento presente. O professor de História Gilberto Werneck, da Associação de Estudos do Tempo Presente (Tempo), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acredita que estudar o tempo presente ajuda o historiador a lidar com o turbilhão de acontecimentos que se sucederam durante o século 20.

Werneck afirma que esses momentos históricos não poderiam ficar restritos ao período contemporâneo, somando-se a tantos acontecimentos como as revoluções Francesa e Russa, o colonialismo europeu, o surgimento dos nacionalismos e os conflitos pela independência na Ásia, África e América Latina.

A História não pára de ser escrita. Cabe à humanidade interpretar cada momento histórico recente para que os erros de hoje não se repitam amanhã.

 

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