O baterista do Paralamas do Sucesso, João Barone, e o executivo da indústria fonográfica André Midani têm mais em comum do que a música. Filho de um pracinha da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que lutou na Segunda Guerra, Barone é um apaixonado pelo tema. Autor do documentário Um Brasileiro no Dia D (lançado por História), é colunista da revista Grandes Guerras e conhece em detalhes o desembarque na Normandia.
Midani testemunhou o desembarque. Nascido na Síria, ele foi criado na França e tinha 12 anos quando viu os navios aliados na praia de Ouistreham, na manhã de 6 de junho de 1944. Viveu entocado num porão. Passou frio, fome. Em 1955 emigrou para o Brasil (fugindo da convocação para lutar na guerra colonial da França com a Argélia), onde atuou em momentos marcantes de nossa música nos últimos 40 anos: o nascimento da Bossa Nova, do Tropicalismo e do rock.
Aos 77 anos, Midani acaba de lançar sua autobiografia, Música, Ídolos e Poder - Do Vinil ao Download. Durante um encontro promovido por História, na casa do empresário, no Rio de Janeiro, eles conversaram sobre guerra e música, é claro. Ao som de passarinhos e entre goles de café, eles relembraram o tempo em que se conheceram, em 1984, quando achavam que só a paixão por bateria os unia. E muito mais.
Minha paixão pela Segunda Guerra rendeu um documentário e isso ajuda a manter viva a memória do que aconteceu. Sua história na Normandia é incrível, precisava ser contada. Como era a vida na época?
Eu estudava num colégio interno em Paris. O pai de dois grandes amigos estava lutando nas forças francesas livres e naquela época a rádio BBC mandava mensagens em código destinadas às famílias dos combatentes. Para essa família, a de Forceville, veio uma mensagem cifrada do tipo "o gato preto vai cair do telhado". Isso significava que era para saírem de Paris. Então em março [de 1944] deixamos a cidade. Fomos todos para Cabourg [na Normandia, perto de Caen], onde tínhamos casas. Nada aconteceu. Passou março, abril e maio, e nada. De noite não podia ter ninguém na rua, como se chama isso em português?
Toque de recolher...
Isso. A vida era muito pacata, monótona. A gente tinha três horas para brincar na praia, mas não podia entrar na água por causa das minas. Então jogávamos futebol com filhos de pescadores e tirávamos leite das vacas.
Aí aconteceu o desembarque na Normandia e você estava lá. Mais um brasileiro que descubro no Dia D!
A guerra não é como nos livros, uma linha americana ou inglesa e outra alemã. A guerra é muito caótica. Na tarde de 5 de junho, nossas mães decidiram que íamos ao cinema, em Dives, uma cidade perto de Cabourg. Assistimos a um filme policial horroroso chamado Pic Pus, no qual (minha memória é difusa...) abria-se um armário e um morto caía. Fiquei impressionado. Voltamos para casa, fui jantar e às 10 da noite, como sempre, já estava dormindo. Tive um puta pesadelo, em que mortos caíam em cima de mim. Minha mãe me acordou: "André, vamos para o porão!" Havia começado o bombardeio! [preliminar ao desembarque] Fomos eu, ela e um primo materno, Paul. Só se ouviam as bombas. Lá pelas 5h, parou tudo! Aprendi, nessa época, que na guerra o silêncio é mais perturbador que o barulho... Meu primo falou: "Vamos lá fora!" Escapamos da minha mãe, chegamos à rua e nada. Fomos até a praça e nada. Contornamos e fomos até a praia. Levamos um susto. Da esquerda à direita, estava lotado de embarcações. E de dentro delas saíam outras. Olhamos por uns dez minutos e voltamos ao porão. Mais meia hora e novamente começou o inferno. Dessa vez, só parou uns cinco dias depois.
Vocês ficaram esse tempo no porão?
Um dia a cidade estava nas mãos dos alemães; noutro, dos ingleses, para depois os alemães retomarem e depois, os americanos. De quando em vez havia um cessar-fogo, respeitado pelos dois lados. Era uma pausa para o povo buscar comida e os soldados retirarem seus mortos. Acho que isso acabou na Segunda Guerra, não existe mais. Lembro que não sentimos fome em nenhum desses dias, mas não lembro como arranjávamos comida. Havia um armazém de secos e molhados perto de casa... De resto, era dia e noite dentro do porão. A gente ouvia lá em cima gritos em inglês, em alemão... Quantas vezes a gente ouviu soldados feridos chamando as mães: "Mom!" [inglês], "Muti!" [alemão]. Foram quatro, cinco dias assim. Até que a gente ficou preso num cerco com os alemães. Isso durou uns dois dias. Como os alemães não se renderam, houve uma trégua para que todos os civis saíssem da cidade para a luta final. Foi uma surpresa para nós vermos a cidade! As casas foram destruídas, mas nada que correspondesse ao barulho assustador dos bombardeios. Caen, cidade vizinha, foi totalmente destruída, não sobrou um prédio de pé...
Como foi a saída de Cabourg?
Pegamos a estrada para Paris a pé, com um grande número de refugiados. Andamos uns 130 quilômetros. À noite, dormíamos em fazendas no caminho, onde recebíamos comida. Foi assim por uns cinco dias. Tivemos que matar nosso cachorro, porque ele não tinha mais couro na pata. Eram colunas de pessoas. E era arriscado. A Luftwaffe foi varrida dos céus, mas os aviões americanos às vezes se confundiam e metralhavam os refugiados nas estradas, pensando que eram tropas alemãs. Quantas vezes aviões americanos não deram rasantes na gente? Houve mortos no caminho. Conforme nos aproximávamos de Paris, os fazendeiros ficavam menos simpáticos. Minha mãe decidiu que nos separaríamos da coluna e pediríamos hospedagem em uma fazenda. Moramos num silo cheio de trigo por uns 15 dias. De vez em quando um Spitfire passava voando. Até que uma tarde vimos um soldado alemão correndo, gritando: "Não atirem! Sou russo!", e pá-pá-pá, levou tiro! Era um dos estrangeiros que os alemães obrigaram a lutar para eles. Uma noite, meu primo disse: "André, está ouvindo um barulho?" Subimos uma colina e vimos 50, 100 tanques americanos. E soubemos que estávamos libertados. Ah, foi um pileque total!
O que aconteceu então?
Minha mãe estava apavorada que fizessem algo com a nossa casa, então voltamos. Chegamos e a casa estava inteira. Fomos tomar banho. Isso é importante, porque fazia muito tempo que não sabíamos o que era banho. Quando saí do banheiro, ouvi um estrondo. Um motor de avião tinha caído e aberto um buraco no telhado! A partir daí, julho, agosto e setembro foram as mais maravilhosas férias que já tive. Na praia havia tanques, planadores, uniformes alemães e aliados, revólveres, fuzis, metralhadoras, para a gente pegar! Havia munição para as armas, balas de canhão dentro dos tanques abandonados, no interior dos bunkers alemães... A brincadeira era disparar as balas, imagine só! Acabou que muita criança perdeu perna, braço. Com 11, 12 anos, a idéia de morte era abstrata. Foram os momentos mais felizes de todas as minhas férias.
A gente ouve histórias de alemães chacinando civis. Você viu isso na época?
Você tem exemplos, como Oradour-sur-Glane. Lá, mataram o povoado inteiro. Quem era pego ajudando os inimigos sofria represálias. Mas isso não é uma particularidade do soldado alemão. Tenho o exemplo do Exército francês na terra da minha família, na Síria. Mataram um francês e o exército em represália matou um sírio e avisou que da próxima vez seriam dez. Sempre há uma próxima vez. E mataram dez, avisando que na próxima matariam todos. Mataram o povoado inteiro. Dependendo da circunstância, todos os exércitos fazem isso. Ancestralmente, soldado vai à guerra para pilhar e violentar mulheres.
Como você veio das praias da Normandia até a praia de Copacabana?
Cheguei em dezembro de 1955, e em janeiro de 1956 fui à praia. Que era deserta! Diziam que as meninas não podiam escurecer a pele porque mostrariam que tinham "um pé na África". Mas veio a Bossa Nova, veio a madame Brigitte Bardot, veio o biquíni, e a praia ficou cheia de brotinhos.
E antes, o que era a música para você?
Quando eu tinha 13, 14 anos, o pai dos meus dois amigos da escola voltou da guerra. Em 1946, chegou em casa com uma máquina, girou a manivela e botou uma bolacha preta no meio. Começou a música, e fiquei tão impressionado que decidi: "É com isso que vou trabalhar!"
E música francesa?
Tinha Juliette Gréco, Yves Montand, Piaf, Aznavour, que, naquela época, era revolucionário. A minha paixão e a dos meus amigos era o jazz. Quando fiz 16 anos, minha mãe decidiu que eu tinha estudado o que tinha que estudar e fiquei trabalhando na confeitaria dela. Até que um dia, depois de uma briga com ela, fui para Paris, trabalhar de confeiteiro. Numa segunda-feira, de folga, vi um cinema passando Jammin’ the Blues. Entrei. Quando acabou, pensei: "Pô, o que estou fazendo na confeitaria?" Na segunda seguinte, vi o filme três vezes. Hoje tem no YouTube e eu recomendo. Na outra segunda, fui procurar emprego. Na rua Beaujon, perto do Arco do Triunfo, vi uma placa: Société Française du Son. Na outra linha, Disques Decca. "Piaf grava aí! Vou entrar, é melhor do que loja!", pensei.
Você participou do surgimento da Bossa Nova, da Tropicália e do rock brasileiro. Como isso começou?
A Bossa Nova já estava no ar, mas eu não sabia de nada. O que me chamou logo a atenção aqui foi o [Dorival] Caymmi. Não entendia o samba. Francisco Alves e Vicente Celestino, achava um horror. Passei meses trabalhando na Odeon e percebi que não havia música para a juventude brasileira. De um lado era o samba, do outro as vozes operísticas. Havia filas de jovens no cinema para ver Marlon Brando, e eu pensava: "Que país é este que não tem música para essa juventude?" O fotógrafo Chico Pinheiro me apresentou os amigos do filho. Eram [Roberto] Menescal, Nara Leão, Carlos Lyra, [Ronaldo] Bôscoli... As referências que eu tinha da França não tinham nada a ver com a música que eles tocavam, mas a atmosfera era a mesma. Tempos depois, o Caymmi me apresentou ao João Gilberto. Eu não descobri a Bossa Nova, eu encontrei a Bossa Nova.
E como foi com a Tropicália?
Não posso dizer que descobri a Tropicália. Quando cheguei à Companhia [Brasileira de Discos], eram 150 artistas. Fiz uma penosa triagem. Fui eliminando até ficarem 50. A Gal, o Caetano e o Gil já estavam lá. Eu não os descobri, só dei espaço. Como um jardineiro, que tem que tirar o mato para as plantas crescerem. Depois chegaram Jorge [Benjor], Chico [Buarque], [Maria] Bethânia, e a companhia foi crescendo.Um dia ela ficou tão grande que eu não tinha mais onde agredir. O Roberto Carlos não queria vir de jeito algum. O Milton [Nascimento] e sua turma eram chorões, reclamavam e não me identifiquei. Decidi que, se não podia mais agredir, seria agredido. Fui para a Warner e aí você conhece a história, porque já estava participando dela. Foi quando dei a famosa declaração de que o futuro da música brasileira era o rock’n roll.
Essa declaração deu o empurrão definitivo ao rock brasileiro?
O Raul [Seixas] já existia, Pepeu [Gomes], Rita Lee. O Gil, o Caetano e o Jorge Ben já faziam rock. E vieram o Ultraje a Rigor, Ira!, Kid Abelha, Titãs... Recebi uma demo dos Paralamas do Sucesso, era aquele negócio da motocicleta [Vital e sua Moto], achei do cacete! Mas resolvi pensar uns dias. Foi fatal. Vi que tinha que contratar, mas nesse intervalo vocês já tinham assinado com outro. Anos depois, botei uma bela grana na mesa e pensei: "Agora eles vêm!" Mas vocês foram iguais ao Roberto Carlos, não vieram! Aliás, não sei por que estou te dando essa entrevista! [risos]
A gente não foi, mas você sempre nos ajudou, e continua ajudando!
Saiba mais
DVD
Um Brasileiro no Dia D, Grandes Guerras, 2006
Aficionado por história militar, João Barone vai à Normandia, cenário do desembarque que definiu a Segunda Guerra.
LIVRO
Música, Ídolos e Poder, André Midani, Nova Fronteira, 2008
O autor fala da infância, marcada pela guerra, e da vida no Brasil, onde se tornou um produtor musical muito influente.
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Conheça a revista
Aventuras na História
edição 075, outubro 2009
Babilônia.
Um mergulho profundo na civilização que nos deu a escrita, a matemática, a astronomia e a Torre de Babel.
- sumário da edição 075
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